FLUXOS DA SOMBRAS

Inkvera

Terror & Suspense

Capítulo 1 — A Casa das Estátuas

Capítulo 1 de 12 · 8% concluído

Amadeira da cabana rangia baixinho, como ossos velhos acomodando-se sob o peso de um corpo que não quer ser esquecido. O Gato cinzento caminhava devagar pelo assoalho irregular, as almofadas das patas sentindo cada sulco, cada farpa que o humano deixara para trás anos antes. O ar dentro da casa era denso, carregado de um cheiro úmido e familiar: mofo crescendo entre as frestas das paredes, cinza fria da lareira apagada há muito tempo, e o leve odor metálico de pelagem molhada que nunca secava completamente. Ele parou diante da janela estreita. Lá fora, as montanhas ainda resistiam, cobertas por um manto de névoa baixa que se arrastava entre os pinheiros escuros. O céu, porém, parecia mais baixo que ontem. Uma pressão cinzenta, quase palpável, como se o ar tivesse ganhado peso e quisesse pressionar sua caixa torácica. O Gato saltou para o parapeito e lambeu a pata dianteira com lentidão deliberada. Ali, no silêncio absoluto que ele tanto cultivava, o mundo lhe pertencia. Não havia vozes. Não havia olhares. Apenas ele e as Estátuas. Elas estavam dispostas em círculo irregular ao redor da cabana, algumas eretas, outras ligeiramente inclinadas, como sentinelas cansadas. Todas esculpidas em madeira escura e dura, todas com o mesmo tamanho, a mesma postura elegante, as mesmas orelhas levemente inclinadas para trás. Todas idênticas a ele. O humano que as fizera tinha sido meticuloso. Dedos que, certa vez, o Gato observara trabalhar à luz de um lampião a óleo, dedos que agora não existiam mais. Ele pulou para fora. A terra estava fria e úmida sob as patas, o musgo macio absorvendo o som dos seus passos. Caminhou entre as estátuas devagar, roçando o flanco contra a madeira áspera de uma delas. A textura era irregular, cheia de pequenas lascas e sulcos deixados pela faca. O cheiro era de madeira velha, resina seca e algo mais sutil, quase suor antigo, como se a estátua tivesse guardado o esforço do escultor em suas fibras. Parou diante da que ficava mais próxima da porta. Olhou fixamente para os olhos vazios entalhados. Por um instante, pareceu-lhe que a pupila de madeira havia se dilatado um milímetro. Apenas um. O suficiente para fazer o pelo da nuca eriçar-se levemente. Ele piscou. A estátua voltou a ser apenas madeira. Morta. Imóvel. Você está imaginando coisas, pensou. Aqui não existe ninguém para imaginar junto. Voltou para dentro. O interior da cabana era pequeno, mas perfeito para um único habitante. Um colchão puído no canto, coberto por uma manta que ainda conservava traços do cheiro humano, um odor doce e enjoativo de pele e fumaça que o Gato aprendera a tolerar. Uma mesa baixa onde ele guardava seus troféus: penas, ossos de roedores, uma bola de lã desfiada. No centro do cômodo, um espelho rachado apoiado na parede. Ele evitou olhar para si mesmo. A chuva começou como um sussurro. No início, eram apenas algumas gotas batendo no telhado de zinco enferrujado. Ploc. Ploc. Um ritmo lento, quase reconfortante. O Gato enrolou-se sobre o colchão, enrolando a cauda sobre o focinho, e fechou os olhos. O som da água era bom. Significava que os ratos sairiam menos e que o ar ficaria mais limpo. Mas o ritmo mudou. As gotas aceleraram. Não muito. Apenas o suficiente para que o som deixasse de ser aleatório e se tornasse quase... intencional. Como dedos tamborilando numa superfície. Como alguém do lado de fora testando a paciência da madeira. Ele abriu os olhos. A luz lá fora tinha mudado. Agora era mais densa, quase oleosa. Levantou-se e caminhou até a porta entreaberta. O cheiro de terra molhada invadiu a cabana com força, argila, folhas em decomposição, e algo mais doce e podre, como carne esquecida em algum lugar nas raízes das árvores. Uma das estátuas estava diferente. O Gato saiu devagar, o corpo baixo, os bigodes vibrando ao captar as partículas no ar. Parou diante da estátua que ficava à esquerda da porta. Na pata dianteira direita, onde antes havia apenas a superfície lisa da madeira entalhada, agora existia um arranhão profundo. Três sulcos paralelos. Frescos. A madeira clara exposta contrastava com o escuro envelhecido ao redor. Ainda exalava um leve cheiro de seiva perturbada. Ele aproximou o nariz. O arranhão era exatamente do tamanho e da profundidade que suas próprias garras poderiam fazer. Mas ele não tinha feito aquilo. O Gato girou o corpo num círculo lento, cauda baixa, ouvidos voltados para frente. A chuva agora caía mais forte, batendo em suas costas e escorrendo pelo cinzento, colando-o à pele. Sentiu o frio penetrar até os ossos. Não era um frio comum. Era um frio que carregava peso. Como se a água trouxesse consigo a memória de lugares profundos e escuros. Olhou novamente para a estátua. Os olhos entalhados pareciam acompanhar o movimento. Não era ilusão. Não completamente. Havia uma leve mudança na inclinação da cabeça milímetros, talvez. O suficiente para que o ângulo da luz criasse a impressão de que a boca de madeira agora estava ligeiramente entreaberta. Um som baixo veio de trás dele. Não era o vento. Era algo mais próximo. Um suspiro úmido, quase um ronronar distorcido, vindo da direção da estátua mais distante, quase engolida pela névoa. O Gato não correu. Correr significaria admitir que algo ali podia caçá-lo. Em vez disso, recuou devagar até a porta, sem tirar os olhos das figuras imóveis. A chuva agora era uma cortina densa, transformando o mundo ao redor da cabana num borrão cinzento. As montanhas pareciam mais baixas. A névoa subia. Dentro da cabana, ele empurrou a porta com o ombro até quase fechá-la. Ficou parado no escuro, ouvindo o próprio coração um tambor rápido e preciso dentro do peito. O colchão cheirava a ele, a segurança, a anos de solidão absoluta. Mas o cheiro de madeira recém-arranhada ainda pairava no ar, misturando-se ao mofo e à chuva. E, pela primeira vez em muito tempo, o Gato sentiu que a casa sua casa já não era grande o suficiente para conter apenas ele. A chuva continuava. E algo dentro dela parecia estar aprendendo a respirar.