O ECO DAS MEMÓRIAS PERDIDAS

Inkvera

Ficção

Capítulo 1 — SONHOS QUE NÃO PERTENCEM AO PRESENTE

Capítulo 1 de 22 · 5% concluído

A chuva caía silenciosamente sobre Raven Hollow. As gotas deslizavam pelos telhados escuros das casas antigas enquanto uma névoa espessa se espalhava pelas ruas vazias. As luzes amareladas dos postes mal conseguiam atravessar a cortina branca que envolvia a cidade naquela madrugada.

No quarto do segundo andar de uma casa próxima à floresta, Ethan Walker se agitava durante o sono. Seu rosto demonstrava desconforto.

Mais uma vez o sonho havia retornado. O mesmo sonho. Sempre o mesmo.

Ele estava parado à beira de um lago. A água era negra como tinta. Uma névoa prateada flutuava sobre a superfície imóvel. O silêncio era absoluto: nenhum pássaro, nenhum vento, nenhum som. Então ela aparecia. Uma garota. Os cabelos escuros balançavam suavemente. Os olhos azuis brilhavam como pequenas estrelas. Ela estava do outro lado da margem, observando-o, esperando. Como sempre.

Ethan tentava caminhar até ela. Tentava chamá-la. Mas sua voz nunca saía. A distância entre eles parecia aumentar a cada passo. Então a garota finalmente falava.

— Você prometeu.

A voz ecoava pelo lago, suave, triste, dolorosa.

— Não me esqueça desta vez.

O coração de Ethan disparou. Ele tentou correr, tentou alcançá-la, mas a névoa começou a envolvê-la. Primeiro os pés, depois as pernas, depois o corpo inteiro. Ela desapareceu.

Ethan gritou. O lago tremeu.

A água começou a se agitar violentamente. Milhares de vozes surgiram das profundezas, sussurros, lamentos, fragmentos de palavras impossíveis de compreender. Então algo emergiu da água. Uma sombra gigantesca. Observando-o. Esperando.

Ethan despertou abruptamente. Seu corpo estava coberto de suor. A respiração acelerada. O coração parecia querer escapar do peito. Por alguns segundos ele ficou imóvel na cama, apenas ouvindo. A chuva continuava lá fora, constante, calma, real. Ele passou as mãos pelo rosto.

— Outra vez...

O relógio digital sobre a mesa marcava 5h17. Ethan suspirou. Sabia que não conseguiria voltar a dormir. Levantou-se lentamente. O quarto estava mergulhado em penumbra. Livros ocupavam uma das paredes. Fotografias antigas decoravam a escrivaninha.

Uma delas chamou sua atenção: uma fotografia da cidade tirada muitos anos antes de ele nascer. Não sabia por que a mantinha ali. Algo naquela imagem sempre o atraía, como se escondesse um segredo.

Abriu a cortina. A floresta ao fundo parecia ainda mais sombria sob a chuva. Desde pequeno tinha a sensação de que havia algo estranho naquele lugar. Algo que ninguém mais parecia notar. Ou talvez todos notassem e fingissem não ver.

Desceu as escadas. O cheiro de café preenchia a cozinha. Benjamin Walker já estava acordado, sentado à mesa, lendo o jornal, como fazia todas as manhãs.

— Você parece cansado — disse Benjamin sem levantar os olhos.

Ethan abriu a geladeira.

— Pesadelos.

Benjamin finalmente ergueu o olhar. Por um instante, uma expressão de preocupação cruzou seu rosto, rápida demais para ser compreendida.

— Os mesmos?

Ethan assentiu.

— Os mesmos.

O silêncio instalou-se. A chuva batia contra a janela. Benjamin voltou a encarar o jornal, mas Ethan percebeu que seu pai havia ficado tenso, como sempre acontecia quando os sonhos eram mencionados.

— Pai.

Benjamin continuou lendo.

— Hm?

— Você acredita que sonhos podem ser memórias?

O homem demorou alguns segundos para responder. Tempo demais.

— Não.

A resposta veio seca, rápida, defensiva. Ethan franziu a testa.

— Tem certeza?

Benjamin dobrou o jornal.

— O passado pertence ao passado.

— E se não pertencer?

O pai levantou-se. Pegou sua xícara de café e caminhou até a pia. A conversa claramente havia terminado para ele.

— Algumas perguntas não levam a lugar algum, Ethan.

O jovem observou-o em silêncio. Mais uma vez, a mesma reação, o mesmo desconforto, o mesmo mistério. E isso apenas aumentava suas suspeitas.

Duas horas depois, a chuva havia diminuído. Raven Hollow despertava lentamente. As ruas molhadas refletiam as luzes das vitrines. Pequenos cafés começavam a abrir. O cheiro de pão fresco misturava-se ao ar frio da manhã. Ethan caminhava pela avenida principal, as mãos dentro dos bolsos do casaco, sem destino específico. Era um hábito antigo. Caminhar ajudava a organizar os pensamentos. Ou pelo menos tentava.

Ao atravessar a praça central, algo chamou sua atenção. Um grande cartaz havia sido colocado próximo à prefeitura: "NOVOS MORADORES CHEGANDO A RAVEN HOLLOW. PROGRAMA DE REPOVOAMENTO REGIONAL." Ele não deu muita importância. Até ouvir duas senhoras conversando próximas dali.

— Ouvi dizer que uma família veio de muito longe. — Para morar aqui? Coitados. — Talvez não saibam dos desaparecimentos.

Ethan continuou andando, mas aquelas palavras ficaram em sua mente. Desaparecimentos. Mais uma das muitas histórias estranhas da cidade. Histórias que ninguém parecia disposto a explicar completamente. Seu celular vibrou. Mensagem de Noah: "Você sumiu de novo?". Outra mensagem chegou imediatamente: "Estou no café. Venha antes que eu peça seu chocolate quente."

Ethan sorriu. Noah era provavelmente a pessoa mais insistente da cidade e talvez seu único amigo capaz de arrancá-lo dos próprios pensamentos. Guardou o celular e mudou de direção, sem perceber que, naquele exato momento, uma jovem observava a cidade pela janela de um trem que se aproximava lentamente da estação. Uma jovem de cabelos escuros, olhos azuis e um sentimento inexplicável de que estava voltando para casa. Mesmo sem jamais ter estado ali.