Miguel acordou antes do nascer do sol.
A casa permanecia mergulhada na tranquilidade das primeiras horas da manhã. O relógio marcava cinco e vinte e três quando ele abriu os olhos e observou o teto branco do quarto. Por alguns segundos, permaneceu imóvel. Não porque estivesse cansado. Mas porque gostava daquele momento. O breve intervalo entre o sono e a realidade. O instante em que a vida ainda não havia começado a correr.
Ao seu lado, Clara dormia serenamente. Os cabelos castanhos espalhados pelo travesseiro pareciam desenhar pequenas ondas sobre o tecido claro. Miguel sorriu. Mesmo depois de tantos anos juntos, ainda sentia uma paz inexplicável ao observá-la dormir. A luz suave da madrugada atravessava as cortinas e desenhava sombras delicadas pelo quarto. Lá fora, a cidade despertava lentamente. Lá dentro, o mundo parecia perfeito.
Ou pelo menos era o que Miguel acreditava. Ele levantou-se em silêncio e caminhou até a cozinha. Enquanto preparava o café, ouviu pequenos passos se aproximando. Passos leves. Desajeitados. Felizes. — Papai! A voz infantil ecoou pela casa. Miguel virou-se imediatamente. Sofia surgiu no corredor segurando um urso de pelúcia quase maior que ela. Os cabelos bagunçados denunciavam uma batalha recente contra os sonhos.
Miguel abriu os braços. Ela correu. E ele a ergueu no ar como se fosse a coisa mais preciosa do universo. Porque era. Naquele instante, sem que percebesse, Miguel possuía aquilo que milhões de pessoas passam a vida procurando. Amor. Não o amor dos filmes. Nem o amor das promessas. Mas o amor simples. Real. Imperfeito. E eterno. Sofia encostou a cabeça em seu ombro.
— Você vai trabalhar hoje? — Vou. Ela fez uma careta. — Então não vai brincar comigo. Miguel riu. — Vou brincar quando voltar. — Promete? Ele beijou sua testa. — Prometo.
Algumas promessas parecem pequenas quando são feitas. Mas podem se tornar gigantes quando o destino decide cobrá-las. Naquele momento, Miguel não tinha como saber disso. Não tinha como imaginar que a vida estava prestes a dividir sua história em duas partes. A vida antes. E a vida depois. Porque às vezes o universo não anuncia suas tempestades. E continua em silêncio.